O treinamento corporativo quase sempre erra no mesmo ponto
Um novo colaborador entra na tua equipa. Entregas-lhe um manual de 80 páginas, fazes-lhe assistir a três dias de apresentações em PowerPoint e pedes que "tome nota". Um mes depois, ele ainda tem dificuldade com procedimentos basicos que achaste claros.
Não e falta de vontade. Não e falta de inteligência. E uma inadequação fundamental entre a forma como a informação foi transmitida e a forma como ele aprende naturalmente.
Esse e o problema que o modelo VARK, desenvolvido por Neil Fleming e Colleen Mills em 1992, permite resolver de forma elegante. VARK significa Visual, Auditory, Read/Write, Kinesthetic: quatro estilos de aprendizagem distintos que descrevem como as pessoas preferem receber e processar informação.

O VARK já era conhecido como ferramenta educacional. O que este artigo explora e a transição muitas vezes negligenciada da educação para a empresa: como gestores e formadores podem usar os perfis VARK para transformar o onboarding, as reuniões e o treinamento continuo.
Se quiseres entender primeiro os fundamentos do modelo, o artigo sobre estilos de aprendizagem VARK e um ótimo ponto de partida. Para entender como adaptar a tua própria forma de aprender, consulta VARK: adaptar o teu aprendizado.
Do campus para o escritório: como o VARK atravessa essa fronteira
Neil Fleming desenvolveu o VARK num contexto educacional, para ajudar professores e alunos a alinhar-se melhor. Mas as pesquisas que se seguiram mostraram rapidamente que as preferências de aprendizagem não desaparecem quando se passa a usar um cracha de colaborador.
Um estudo de Felder e Silverman (1988) sobre estilos de aprendizagem em engenharia mostrou que adultos mantem as suas preferências dominantes ao longo de toda a vida profissional. Outras pesquisas em ciências da formação de adultos (Kolb, Honey & Mumford) confirmaram que adultos aprendem melhor quando o formato esta alinhado ao seu estilo preferido.
A diferença entre a escola e a empresa e que a escola oferece uma variedade natural de formatos (aulas expositivas, laboratórios, trabalhos escritos, projetos em grupo). A empresa tende a uniformizar: presencial ou slides, manual escrito ou treinamento em sala. E exatamente ai que o diagnóstico VARK agrega valor.
Os 4 perfis VARK no contexto profissional
Visual (V) -- o leitor de imagens e esquemas
O perfil Visual aprende por meio de esquemas, gráficos, diagramas, mapas mentais e representações espaciais da informação. Atenção: "visual" não significa "imagens" no sentido fotografico -- significa "representações organizadas visualmente da informação".
No treinamento corporativo:
- Funciona bem com: organogramas, mapas de processos, dashboards visuais, mapas mentais, fluxogramas
- Tem dificuldade com: treinamentos puramente orais, longas listas de procedimentos textuais
- Onboarding ideal: mostra primeiro uma visão geral visual da organização, depois os detalhes
Sinal em reunião: O perfil Visual frequentemente desenha enquanto ouve -- esquemas, bolhas, setas. E compreensão ativa, não distração.
Dica para o gestor: Antes de uma decisão importante, apresenta primeiro uma matriz ou esquema que mostre as opções. O Visual compreende as estruturas antes dos detalhes.
Auditivo (A) -- o pensador pela fala
O perfil Auditivo aprende pelo diálogo oral, pelo debate, pela reformulação e pela escuta. Assimila melhor o que ouve e diz do que o que le ou ve num esquema.
No treinamento corporativo:
- Funciona bem com: discussões em grupo, apresentações orais, podcasts internos, conversas de debriefing após o treinamento
- Tem dificuldade com: treinamentos por leitura autonoma, e-learning sem áudio, manuais densos
- Onboarding ideal: debriefing oral diário com o gestor nas primeiras semanas, não apenas um manual de procedimentos
Sinal em reunião: O perfil Auditivo frequentemente pensa "em voz alta" -- formula as suas ideias falando, não antes. Precisa de espaço para explorar verbalmente antes de concluir.
Dica para o gestor: Da o feedback de forma oral em vez de escrita. Uma conversa de 10 minutos vai trazer mais resultado do que um e-mail de 3 páginas.
Leitura/Escrita (R) -- o perfil textual
O perfil Read/Write aprende pelo texto: ler, tomar notas, escrever resumos, estruturar a informação por escrito. E o perfil que mais anota em treinamentos, que relê as suas notas a noite, e que prefere um bom documento escrito a qualquer apresentação oral.
No treinamento corporativo:
- Funciona bem com: documentacoes detalhadas, wikis internos, guias escritos, relatórios, procedimentos textuais
- Tem dificuldade com: treinamentos puramente orais, ateliês práticos sem suporte escrito
- Onboarding ideal: oferece um wiki completo no primeiro dia, um plano de leitura estruturado e tempo para absorver o conteúdo
Sinal em reunião: O perfil R/W anota muito. Voltará frequentemente as suas anotações para validar o que reteve. Prefere uma ata escrita a um "toda a gente se lembra, não e preciso escrever".
Dica para o gestor: Envia feedbacks, decisões e expectativas por escrito. Ele vai processar melhor do que numa conversa improvisada.
Cinestético (K) -- o aprendiz pela ação
O perfil Cinestético aprende fazendo -- pela pratica, pela experimentação, por estudos de caso reais e por simulações. Só assimila de verdade uma informação depois de a ter vivenciado concretamente.
No treinamento corporativo:
- Funciona bem com: shadowing (acompanhar alguém em situação real), treinamento por tentativa e erro, simulações, projetos-piloto
- Tem dificuldade com: longas fases teóricas antes de "tocar" no assunto, treinamentos exclusivamente em sala
- Onboarding ideal: imersão rápida no trabalho real, com acompanhamento progressivo. Não o forças a "aprender o contexto" por duas semanas antes de lhe dares um projeto de verdade.
Sinal em reunião: O perfil K pode parecer impaciente com longas discussões teóricas. Vai sempre preferir "tentar" a "planear mais". Não e impulsividade -- e o seu modo de aprendizagem.
Dica para o gestor: Para um novo procedimento, coloca-o em situação real o mais rapidamente possível (com uma rede de segurança). Ele aprendera 10 vezes mais rápido fazendo do que lendo.
3 aplicações concretas para gestores
Aplicação 1: O onboarding VARK-aware
O onboarding e o período em que o desalinhamento entre estilos de aprendizagem e formatos de treinamento tem maiores consequências. Um novo colaborador que passa as suas duas primeiras semanas num formato inadequado ao seu estilo demora mais a ganhar velocidade e, as vezes, sai antes de ter tido a oportunidade de provar o seu valor.
Protocolo de onboarding adaptado:
Primeira ação: fazer o teste VARK com o novo colaborador logo no primeiro dia (ou antes da chegada). São 5 minutos e tens um ponto de partida concreto.
Em seguida, adapta as três primeiras semanas:
- Semana 1 (independente da tendência): visão geral da organização, da cultura e dos processos principais
- Semanas 2 e 3: treinamento em ferramentas e procedimentos, adaptando o formato ao perfil VARK identificado
| Perfil | Formato prioritario | Formato complementar |
|---|---|---|
| Visual | Esquemas, organogramas, dashboards | Slides visuais |
| Auditivo | Sessões de Q&A diarias, debriefings orais | Apresentações da equipa |
| R/W | Wiki detalhado, documentação procedimento a procedimento | Anotações guiadas |
| Cinestético | Shadowing + pequenos projetos reais a partir da semana 2 | Simulações e jogos de papel |
Aplicação 2: As reuniões que funcionam para todos
Uma reunião eficaz para um perfil V pode ser esgotante para um perfil K -- e vice-versa. Ve como desenhar reuniões que ativam várias modalidades:
Antes da reunião:
- Envia um documento escrito (R/W) com a pauta e os materiais visuais (V)
- Partilha as perguntas de discussão com antecedência para que os Auditivos possam "pré-pensar" em voz alta
Durante a reunião:
- Começa com um esquema ou visão geral visual (V)
- Reserva tempo para trocas orais e perguntas (A)
- Prevê um momento de ação concreta: "agora, decidimos e atribuimos as ações" (K)
- Finaliza com uma ata escrita em tempo real (R/W)
A técnica do "checkpoint de compreensão": A meio de um treinamento ou reunião densa, pede a cada um que reformule o que reteve no formato da sua preferência: o V desenha, o A explica em voz alta, o R/W escreve, o K propõe uma ação concreta. E revelador e consolida o aprendizado para todos.
Aplicação 3: O treinamento continuo multimodal
Os treinamentos corporativos padrão costumam ser monomodais: um dia em sala com slides ou um modulo de e-learning. Resultado: cerca de um quarto da tua equipa aprende de verdade, os demais fingem.
Princípios do treinamento multimodal:
-
Variedade de formatos para o mesmo conteúdo. Cada conceito importante pode ser apresentado de várias formas: vídeo + texto + exercício prático + discussão em grupo. Não e repetição -- e acessibilidade.
-
Escolha do formato. Na medida do possível, deixa os participantes escolherem como querem receber uma informação. O simples facto de oferecer "posso enviar-te um documento detalhado ou podemos conversar" cria envolvimento.
-
Avaliação pela pratica, não apenas por questionários. Um perfil Cinestético que "não foi bem" num quiz pode executar a sua missão perfeitamente em situação real -- a avaliação teórica não mede o que ele realmente aprendeu.
Para entender como os perfis VARK interagem com a composição de uma equipa de alto desempenho, o artigo sobre a equipa ideal explora essas dinâmicas em detalhe.
Perguntas frequentes sobre VARK na formação de equipas
O VARK tem validade científica para adultos no ambiente corporativo?
O VARK e uma ferramenta de preferência, não de medição de capacidades cognitivas. A sua utilidade pratica e bem documentada em contextos educacionais e de formação profissional. Alguns pesquisadores debatem a rigidez dos "estilos" -- na pratica, a maioria das pessoas tem uma preferência mas consegue aprender por várias modalidades. O VARK continua útil como guia prático para diversificar os formatos de treinamento.
Como aplicar o teste VARK em toda uma equipa?
O teste VARK no Profilia e gratuito, rápido (5 minutos) e acessível pelo telemóvel. Podes pedir a toda a equipa que o faça antes de uma sessão de treinamento. Não e necessário conhecer os resultados individuais se a privacidade for uma preocupação -- podes simplesmente pedir que cada um "guarde o seu perfil" e indique as suas preferências de formato no início do treinamento.
E se a minha equipa tiver perfis muito diferentes?
Isso e a norma, não a exceção. A solução não e encontrar um formato "universal" -- e variar os formatos. Um treinamento em três momentos (teoria visual/textual + discussão em grupo + exercício prático) cobre os quatro perfis VARK numa única sessão.
O VARK muda com a idade e a experiência profissional?
As preferências de base permanecem relativamente estáveis, mas a experiência profissional pode desenvolver competências em modalidades secundárias. Um engenheiro Auditivo que trabalha dez anos num ambiente onde tudo e documentado geralmente fica mais a vontade com o R/W, sem que isso se torne a sua preferência primária.
Como combinar o VARK com outras ferramentas de RH (DISC, MBTI etc.)?
VARK e DISC são complementares, não redundantes. O VARK descreve como alguém aprende. O DISC descreve como essa pessoa se comunica e toma decisões. Conhecer as duas dimensões da uma imagem mais completa: um colaborador pode ser D (direto, orientado a resultados) em comunicação e K (cinestético) em aprendizagem. Esse cruzamento esclarece como o gestor e o formador devem adaptar a sua abordagem.
Faz o teste VARK com a tua equipa
Conhecer os perfis de aprendizagem da tua equipa e um investimento de 5 minutos por pessoa que pode transformar a eficácia de todos os teus treinamentos futuros.
Começa por ti mesmo: faz o teste VARK e descobre o teu perfil de aprendizagem dominante. Depois, partilha com a tua equipa.
Este teste e de caráter lúdico e informativo. Não constitui um diagnóstico psicológico.